Minha vida nada perfeita…os dois lados da moeda.

No fim dos anos 80, minha mãe dava à luz no berço do Lixão da Praia da Luz, na cidade de São Gonçalo (Rio de Janeiro). Em meio ao caos e muita miséria, lá eu nascia, a caçula entre meus 15 irmãos. Em casa, todos cuidavam de todos e assim eu cresci, sempre com o olhar para o próximo.

Em uma casa simples, com muitas crianças, nunca nos faltavam alimentos, pois meu pai sempre trazia tudo do lixão para casa. Ele dividia o que era lavagem para os porcos (que ele criava)e para nós como alimento. Tudo o que era lixo se transformava em luxo.

Uma fome saciada pelos caminhões da “Galinha do cú roxo” (um termo que usávamos para as galinhas fora da validade que eram despejadas no lixão). Com os olhares inocentes e famintos, esperávamos ansiosos o retorno do meu pai, muitas das vezes voltando com as mãos sangrando pois havia sido apunhalado por outros catadores que disputavam alimento.

Todos os dias ,meu pai voltava para casa empurrando um carrinho de mão de madeira, feito por ele mesmo.

Naquele tempo não existia uma força a ser medida entre homens e mulheres. Elas carregavam bacias com alimentos na cabeça por quilômetros a pé. Acidentes causados pela luta e pela sobrevivência eram comuns, até mesmo pela inocência das crianças no meio do lixo.

Ninguém passava fome, o lixão era nosso supermercado e o chiqueiro nosso playground.

Sandra Passos modelo
Não importa onde você irá chegar, nunca esqueça de onde você veio (Praia da Luz)

Domingo de feira

Aos sábados, um latão de alumínio cheio de água fervia na fogueira na frente da nossa casa. No chiqueiro, meus irmãos cercavam os porcos enquanto meu pai pulava em cima deles para apunhalá-los.

Minha função era limpar o porco, jogando água fervendo na pele do porco e raspando cada pelo dele. Meu pai estava me ensinando a ser uma sobrevivente nesse mundo.

Aos domingos, acordávamos ás quatro da manhã e antes mesmo do galo cantar já estávamos carregando o carrinho de mão com a carne do porco, por quilômetros até chegar na Feira de Itaúna. Meu irmão Beto levava a bancada e a balança para a feira em uma carroça.

Eu adorava esse dia, meu pai costumava comparar um sorvete de tutti-fruitti para cada um que o ajudasse na feira. Eu não ia ajudá-lo pelo sorvete (apesar de amar sorvetes), eu tinha o prazer e o orgulho de ajudá-lo, de poupá-lo um pouco do trabalho. Mesmo com pouco estudo ele fazia contas como ninguém, sem calculadora. Aprendi a tabuada para começar a ajudá-lo, pois ele tinha problemas de audição causados por uma explosão no quartel quando ele era mais jovem.

Eu queria ser os ouvidos do meu pai e a força dos meus irmãos.

Dias de lutas e dias de glória.

Tudo no seu tempo…

modelo Sandra Passos na China
Gratidão pela vida – Guangzhou, China

Aos 16 anos, com apenas 2 dólares no bolso, embarquei sozinha em uma viagem rumo à China para trabalhar como modelo.

Confesso que meu sonho nunca foi ser modelo,mas usei o meu talento (que foi descoberto pela minha mãe) a meu favor para mudar a minha história.

Sandra Passos
Bastidores na China

Carrego comigo todos os valores que aprendi ao longo da vida e a importância de dar tempo ao tempo. Seja grato pela sua vida.

Estou há 18 anos trabalhando no mundo da moda e vou compartilhar com vocês através desta coluna as minhas experiências como modelo, superações de vida, viagens, backstages, dicas de carreira, beleza e empoderamento. O meu único objetivo é inspirar.

E você? Qual é a sua história?

“…Há um tempo certo para cada propósito…” Eclesiastes 3

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