Os padrões de beleza atuais são difíceis de serem seguidos. Mulheres perfeitas estão em todas campanhas publicitárias. Elas não têm marcas e manchas na pele. Têm cabelos naturais maravilhosos, corpos desenhados pela combinação entre a dieta perfeita e o exercício fisico da moda. Fazem micro plásticas e aplicações a todo momento para retirada de pequenos defeitos que são naturais e vem à tona, como rugas, marcas de expressão, celulites, estrias.

Voltei a modelar depois dos 34 anos de idade e como o mundo da moda é cruel, eu me questionei diversas vezes sobre minhas marcas e meu corpo e se com elas era possível modelar ou não. Algumas pessoas vão me chamar de maluca e falar que está tudo bem, afinal sou magérrima ou não aparento ter a idade que tenho. Mas o que vai dizer se está tudo bem mesmo, é o mercado fashion. Ele é quem demanda, e uma prova disso foi  a reação do fotógrafo ao ver minha cicatriz enorme na perna.

Eu já estava fotografando há mais de uma hora e meia com ele no estúdio fechado. E até então, eu era para ele uma modelo brasileira trabalhando na Ásia. Recebi muitos elogios durante o ensaio do tipo: ´´você é linda e muito profissional!´´. Nas últimas fotos fizemos o ensaio com biquini e mesmo assim ele não tinha reparado a cicatriz. Pedi então que ele tirasse uma foto da minha cicatriz e virei mostrando com muito orgulho! Vocês precisavam ter visto a reação dele! Na mesma hora ele me perguntou: ´´O que é isso? Como isso aconteceu?´´

O buraquinho na perna é o local onde entrou sonda.

Bom, paramos o ensaio e eu contei a história do meu milagre.

 Aos 11 meses de vida tive uma inflamação na cartilagem entre o fêmur e a bacia. Toda vez que minha mãe ia trocar a fraldinha ela reparava que ao levantar minha perna, eu chorava. Me levou ao médico e a notícia chegou: ´´Sua filha tem Artitre Séptica de Quadril. Vamos ter que abrir, tirar parte da cartilagem para eliminar a infecção.´´

O médico parabenizou a minha mãe por estar atenta, afinal a infecção já estava bem avançada e poderia ter atingido outras juntas do meu corpo o que me deixaria imóvel.

Por ser negra e mulher, tive quelóide e a marca ficou maior do que o esperado. Mas ela ta lá. Já escondi ela por muitas vezes. Hoje olho pra ela e lembro que apesar de algumas limitações que tenho hoje, eu poderia estar muito pior.

Eu não era para ter muito movimento na perna direita, mas tenho bastante, mesmo que limitado. Nem o médico entende como. Não posso engordar porque sinto muitas dores, então na minha gravidez tive que andar o mínimo possível. Não posso fazer nada que tenha impacto para preservar o pouco da cartilagem que me resta. Tenho 3 centímetros de diferença entre uma perna e outra, o que gera outros problemas na coluna e os exercícios fisicos são o remédio para as dores, porque fortalece minha musculatura.

Ao final do ensaio, o fotógrafo maravilhoso chamado David Sala, me desejou sorte, disse que eu estava linda e que a manhã tinha sido incrível!

Eu não sei se vou receber muitos nãos, mas o que importa é que estou aqui, lutando por meu espaço, porque sei da minha capacidade.

A minha cicatriz faz parte da minha história. Não posso negar a minha história. Meus vazinhos na perna são também resultado do esforço que faço nas pernas. Minhas marcas de expressão vêm do meu sorriso largo, minhas ruguinhas revelam a idade que está chegando e com ela toda a minha experiência de vida vivida até aqui! Não troco elas por nada! Elas sou eu, eu sou elas! Ah sim, me considero muito bonita! (risos)

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